Sou eu
Pai
Perdoa-me, pai, por não ter sido o teu melhor filho. Por não ter sido o teu orgulho. Liberta-me. Perdoa-me o meu destino.
Sei como a vida te fez ser homem, contaste-me e eu nunca esqueci.
Foste dos que atravessam as tempestades de peito aberto, dos que sujam as mãos e nem as vêem endurecer, como o coração.
Agarraste-te às certezas que conquistaste porque nunca tiveste Deus.
Hoje é como se ainda te acordasse naquelas noites de trovoadas em que a casa inteira se enchia de claridade e eu tinha medo. Tive medo até tão tarde, lembras-te?
E tu explicavas-me tudo, como sempre explicavas a vida, com muita ciência e pinceladas de magia e uma ordem secreta feita de uma qualquer harmonia que quiseste semear no jardim, na tua vida, dentro da tua casa, no coração dos teus filhos.
Sou eu, pai, este homem magro e só, que hoje sabe que não precisa de pedir desculpa por ser quem é mas que como já não pode falar contigo e tem o coração como naquelas noites das trovoadas te pede perdão.
Hoje fiz as pazes com quase tudo, poucos sentimentos profundos deixei para cumprir. Falta-me fazer as pazes com o amor que nos devemos.
Perdoa-me que tenha crescido mais parecido com a Madalena do que com o Pedro, perdoa-me que não seja nenhum dos dois e que tenha sofrido tanto para chegar aqui. Perdoa a criança que te idolatrava e que te escondia o sonho desejado de um dia, quando crescesse, ser uma menina.
Vestia tantas vidas pai, vesti tantas pressas, tantas ansiedades, perdi-me tanto, dentro de mim ruíam muros e carrosséis. Tremia-me a vida, pai, foi-me difícil a vida e tu não sabias.
Tu nada entendias e ias distraidamente perguntando, observando em particulares silêncios onde os teus olhos nadavam sozinhos entre a gente numa imensa desilusão. Não te zangavas, só não entendias e não quiseste saber muito mais do que eu queria contar. No fim éramos como dois estranhos, dois homens cada vez mais estranhos e menos inteiros.
Se os pais têm sonhos para os filhos, os teus riram-se de ti e contigo em tardes secretas de copos. E tu, embora me tenhas faltado sempre de uma certa maneira, faltaste-me cedo demais.
A gentileza também se herda, eu sei. A cerimónia gentil naquele sentido melhor que protege quem amamos mas também abre canais cheios de separação. Talvez por isso nunca tivéssemos trocado as palavras que tanto me faltam.
O dia em que estivemos mais perto de falar foi quando me separei e a Margarida, em lágrimas, anunciou as minhas verdadeiras preferências sexuais enquanto fazia a última visita formal à minha família. Depois bateu a porta, sem esperar mais questões. Ali ficámos todos, a percorrermos com os olhos os rostos uns dos outros, com vontade de verdade e de fugir, tudo ao mesmo tempo.
- O vosso menino, se tiver que ser, até gosta de mulheres. Ele até simpatiza minimamente comigo e também com outras. Mas, definitivamente, prefere homens. Disseste, tu, Margarida, pálida e louca, a tua voz com toda a força, ancorada na grande ironia, sem mais tempo a perder na tua outra vida que ali começava.
Eu escolhi o silêncio. Mais por falta de forças, porque até achava que a vida trabalhava agora sozinha, e tantos anos depois, já não era preciso fabricar mais.
Um imenso alívio, gelado de medo tirava-me qualquer fio de força. Aparentemente ninguém sentia vontade de comunicar. A Madalena suspirava que já não tinha paciência para histéricas com amor-próprio ausente e tendência para o delírio; a mãe recomeçou imediatamente com as suas viagens, arrumando telas, verificando tintas e apontando as suas armas ao branco que ainda a esperava. Como se nada pudesse ser mais normal e urgente. O Pedro deu-me um abraço meio perdido de cá estou e desapareceu. E tu, pai, no mais profundo desconsolo, olhaste-me longamente e anunciaste que já não jantavas. Depois voltaste atrás e disseste que estavas, como sempre estiveras, disponível para ouvir as minhas preciosas palavras.
Nessa noite escolhi beber. Queria anestesiar-me e fazer crescer as frases que te diria, como me apresentaria sem que deixasses de me amar, para tentar lavar a vergonha que receava que sentisses e que ainda estava em mim. Até terias por mim admiração, desejava acreditar com a ajuda de muito álcool.
Bebi e conheci as mais extraordinárias personagens, que me contaram histórias cheias de coragem e dor, gente que virou condenações do avesso, vidas-limite. Beijei pessoas que nunca mais vi, outras que já morreram, outras que aparecem hoje nas revistas prateadas.
Todas me falaram de alma e substância, do que realmente importa, o amor, e tudo me parecia naturalmente óbvio. Eu era uma boa pessoa. Feita dos valores que herdara, com uma sensibilidade gigante, e essa sensibilidade feita de muito desespero eram pés tão grandes que nunca até aí conseguira calçar. Acho que demorei muito tempo a descobrir que também eu podia andar.
Depois tive medo e não sabia como falar-te do meu coração já tão antigo.
Depois de muito silêncio demos um abraço e eu chorei. Não sei se choraste também porque ceguei nesse abraço.
Tu morreste, mas em mim és o homem vivo.
Hoje já não te peço desculpa. Sei bem quem sou. Sou teu filho e o que me deste é uma árvore. Há quem as faça arder e não as compreenda, são os seres maus que não pedem perdão. Há quem as proteja com a vida.
Ainda há quem saiba ser homem.
Perdoa-me pai, perdoa-me só.
Porque eu já me perdoei.
Foi difícil.
Perdoa-me por não ter sabido tantos anos que sabias amar melhor.
F.