domingo, 1 de Novembro de 2009

uma valsa

Na valsa deste inverno volta a tua voz a arrumar as folhas em escultura no meu coração
As palavras têm vontades e perderam qualquer pudor.

as viagens que fazes de mim para mim
desenham-se
Na inocência
na poesia
ainda


A memória de ti faz desaparecer a estranheza do meu rosto ao espelho

E quando o céu se enche de nuvens 
grandes corpos
cinza-escuro e azul-profundo

Ainda soam os pássaros da infância que são os de hoje
semeando alegria e promessas nos baloiços lavados pela chuva de ontem

Ainda há o cheiro da chuva sobre a terra

E tu, sempre tu
No lugar de uma e a mesma dor
Tu à volta do meu coração

Tu
outra vez em certos dias como os ventos que fazem voar os castelos e os sonhos e as raízes

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

ando com poucas palavras escritas


e muitos silêncios desenhados

nas linhas da mão

nas planícies

do corpo


Dou conta das horas

De despertar


já sei ver melhor

para dentro

e reconhecer as aves

mesmo quando é tarde e a luz é morna

Já não tenho medo das trovoadas

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

GRIPE A... as minhas fontes

Gosto de conversar com pessoas. Quase sempre vale a pena. Quer dizer, vale sempre a pena, por umas razões ou por outras.
Hoje valeu muito porque o assunto era a gripe e os autocarros, versus ar condicionado e janelas fechadas mais uma enorme falha comunicacional sobre o que fazer nos autocarros enquanto se vive a saga da pandemia.

Toda a gente repete o assunto. As empresas investiram em máscaras, sprays e desinfectantes poderosos.
E as pessoas continuam a entrar em autocarros de janelas fechadas onde está escrito: manter fechadas - ar condicionado. Assim mesmo.
Só que no Inverno não há ar condicionado e as janelas estão fechadas enquanto se vai tossir e espirrar. Nada a fazer, podemos pensar.
Mas eu pensei que aquela coisa da mensagem das janelas fechadas não era a mais adequada ao contexto que se vive.
E vai daí, perguntei ao senhor motorista.
Tivemos uma conversa engraçada, sem grandes conclusões, sendo que a melhor parte foi aquela em que me disse que também a eles, motoristas, lhes tinha sido entregue o kit, máscaras e desinfectantes.
Rimos bastante, ao imaginar como seria as pessoas na paragem a verem parar um autocarro com um motorista de máscara. Ou pensariam que ele teria gripe e ponderariam não entrar, ou, pior, pensariam que alguém teria e aí  é que não entravam mesmo.
Por isso, eu e o senhor motorista ficámos ainda mais incrédulos com a loucura das gentes.
E eu disse-lhe que tinha enviado um email para a empresa focando essa flagrante falha de comunicação sobre o que fazer entre a gripe, o ar condicionado e as janelas fechadas nesse grande transporte.
O que ele me disse?
Que quando tivesse a resposta a partilhasse com ele, já que também gostava de saber.
E esta hein?

Sem título e com afecto

Deixem lá o Saramago criar e pensar.
Já que poucos se aventuram com coragem nesses domínios. Com o cérebro, o coração e com honestidade.
Ele também não se preocupa muito com as tantas cabeças moles e receosas deste país lindo mas tão pequeno que o pôde ignorar tanto antes do Nobel.
Concordo completamente com ele quando defende que algumas ideias são completamente ridículas.
Antes, digo, já a correr, que ainda não li a Bíblia. Digo ainda porque é um livro que tenho adiado. Como outros.
Mas sei que muita gente foi queimada em fogueiras por pensar e não se vergar diante Daquele que seria apenas o Deus de alguns.
Não me apetece nada falar de Deus. Mas concordo com ele, com Saramago, quando diz que não faz qualquer sentido que esse identificado Deus, antes de ter criado o mundo e o homem, não tenha criado coisa alguma. E também mais nada a seguir.
Acho que essa história que se conta não faz sentido algum. Respeito que haja quem ache que faz todo o sentido. Mas quem lhes dá o direito de criticar opiniões contrárias?
Será a fogueira, mal disfarçada ainda pela intolerância perante as mentes livres?
Deixem lá a inteligência ser livre e pensar, porque em última análise é isso que nos faz maiores, juntamente com o tamanho do nosso coração e a compaixão.
Além disso, quem pediu opiniões literárias a teólogos?
Opiniões sobre Deus e sobre a sociedade ainda vá. Agora sobre o que é ou não é um romance, como se atrevia a definir um senhor teólogo que ouvi falar... enfim.
Um dia concluí que o José Saramago é um escritor genial. Porque ao grande conhecimento que tem da língua portuguesa e enorme cultura, à riqueza da linguagem que utiliza com mestria, une as grandes ideias.
E mistura tudo isso na criação de histórias muito especiais.
Deixem o homem.
É grande e leva-nos longe. E ousa pensar.
Hoje em dia parece ser considerado, o livre pensamento como uma actividade radical ou para gente diferente.
Precisa-se. De diferença. E de grandeza, já agora.
Ter pensamentos altos ou livres não é faltar ao respeito a ninguém. Nem ter opiniões.
Ou continua-se a disfarçar tão mal o desejo de aprisionar em casebres, à sombra da cruz com medo de sentir e de dizer, a mente humana?

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

“Não vejo mas sinto!”

Ele era um homem. Ele era um homem que não via as coisas como os outros homens.

Ele era um homem cego.

Tinha um trabalho difícil, num terminal enorme com centenas de botões. Recebia chamadas do mundo inteiro. Eram sobre assuntos de responsabilidade que para aqui pouco interesse terão. Era uma tarefa importante, à altura da sua inteligência e sensibilidade. Ele sabia onde estavam todos os botões, conhecia-os como as casas dos botões das suas camisas que queria sempre coloridas.

Nunca o conheci, mas um dos seus amigos contou-me isto.

O resto adivinhei eu, com uma fuligem que me entrou nos olhos e um sol de Outono, enquanto as folhas ficam paradas a repousar no chão dos jardins e nas ruas de pedra.

Ele tinha muitos e bons amigos e uma mulher. A mulher também era cega e gostavam de contar um ao outro histórias do que viram, do real ou do imaginário, com cores, formas e temperaturas diferentes. Passavam horas assim, em conversas que os levavam longe, bem acima do pacato e do desinteresse do mundo cinza- claro de alguns.

Ele não tinha medo dos caminhos novos, onde só a escuridão o despertava, nem dos buracos nas calçadas nem dos degraus inesperados. Ele ia muito devagar, procurando estar alegre por dentro e o que mais temia era o medo. Não queria ser devorado por ele, como as antigas visões do real lhe foram levadas.

Os seus amigos viviam impressionados com as coisas que ele fazia, mesmo sem a visão das coisas que a maioria das pessoas possui. Como, por exemplo, consertar uma cadeira, pregando o pé da cadeira de forma simples e antiga, com um prego e um martelo.

O amigo dizia-lhe:

- Deixa estar que eu faço isso.

E ele respondia:

- Mas porque é que não o hei-de pregar? Não vejo mas sinto!

E fazia-o mesmo, enquanto o amigo se arrepiava com o arrepio da amizade contornada pelo medo, sempre que o martelo se erguia e baixava na direcção do prego.

Jogavam muito às cartas. Com um baralho só seu. Em Braille.

E no final de cada jogada, ele sentia as cartas na ponta dos dedos devagar. Com o mesmo vagar que topava uma renúncia, uma batota.

Ficavam assim rendidos, os amigos, a acharem que ele não tinha nada a menos e pelo caminho soubera adquirir umas coisas a mais. Como a sua intensa alegria e a paz que usava como um relógio sempre certo, como os seus sentidos todos, todos os outros, apurados em compensar a visão que perdera. Completos.

Não tinha angústias que lhe moessem os dias, nem fantasmas que lhe escurecessem as claridades.
Não havia mágoas que nele fizessem ninho. Era sempre o vento e o espanto de ser que indicavam as direcções e as rotas.

E quando sonhava com o medo, falava muitas horas com a sua mulher sobre ele até que partisse. Reinventava-o até que parecesse, até que fosse já outra coisa que não assustasse ninguém.

E ele voava, quase belo na despedida, o medo, através das janelas que um homem, que era este, quis deixar sempre abertas.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Tenho anjos guerreiros

São trovoadas
São flores
São pessoas
Tenho anjos guerreiros
da Paz
Estão nas vozes do samba
Estão no fado
Estão nas brisas
Colho-os nos silêncios
Estão nas feridas
Estão nas palavras

Estão no vento que tem memória e coração

Tenho anjos guerreiros que me oferecem crónicas recortadas e livros pesados de afecto
E imagens e sorrisos eternos
Eles sabem quem são

E as cores que geram nas luzes dos dias

F.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

...

A velha Maria pousou tudo o que carregava.
Primeiro o peso do cântaro sobre a cabeça. Depois a carga que levava nos braços, sobre os ombros.
Após ter pousado tudo, viu com surpresa que amanhecia devagar. Naquele dia amanhecia tão devagar que o ar não corria e ela quase não respirava.
Os pássaros nessa manhã cantavam canções que nunca tinha ouvido, que lhe falavam sem ser em língua de pássaro, que lhe musicavam a sua vida inteira. E ela tinha tempo. Isso era assustador.
Teve o tempo de se sentar esgotada, de observar em pormenor as gotas de suor a cair sobre o seu braço marcado, socalcos de rio atravessando a sua idade.
Viu a sua sombra na calçadinha. E olhou para a sua carga a sorrir.
Ia deixando de respirar devagar, e cada vez ouvia melhor os sons sobrepostos, de várias idades que se tocavam, as várias canções como no cinema e o céu a girar como o tempo.
A velha Maria deixou-se cair, a rir-se de si, a rir-se dos queixos empinados dos outros e do tempo.
Enquanto sentia as costas já tão infantis a alargarem, a ganharem espaço entre as costelas, sentiu as enormes asas a aplacarem-lhe a já breve estadia na calçadinha.
Então ainda sorriu ao lembrar-se de uma frase cheia de bafio que tinha levado como verdade: nunca sigas o teu coração, que te pode trocar caminhos com o Diabo.
A velha Maria riu-se disso e a sua voz ia-se juntando em leque às vozes dos pássaros enquanto subia.

domingo, 27 de Setembro de 2009


" O Ego é a bota que desgastamos no espinhoso caminho da espiritualidade"

"Só existem dois dias no ano em que não pode fazer nada pela sua vida: ontem e amanhã"
 
Dalai Lama

sábado, 26 de Setembro de 2009

Reflexão

Não gosto destas coisas dos dias estipulados para isto e para aquilo, dias dos mortos, dia dos vivos, dias do direito e do avesso. Enfim. Não gosto.
Se pelo menos uma vez por semana houvesse o dia do milagre achava mais aceitável, ou se todos os dias fossem dias mundiais da dignidade já achava mais graça. Na terra de Camões, por ele e por o que não lhe fizemos, o dia do milagre devia ser institucionalizado como diário.
Bem se vê como vamos quando lá de lés a lés se chama a um determinado dia antes das eleições dia de reflexão. Ui que cheirinho a bafio...
Já sei, que é por causa dos avanços e das loucuras das caravanas partidárias, que têm cavalos ordinários à solta, sem vergonha e sem valores, só com os olhos a brilhar pelos números e lá num fundo dos olhos um resto de paixão pelo país, que depois se partilha com vários pais que vão mandar nessa paixão e fazer dela o que bem quiserem. Por isso, na minha opinião, a política em Portugal tem sido uma espécie de incesto em que nós, cidadãos, é que sentimos a vergonha na cara, nos bolsos e no futuro que temos a teimosia de tentar vislumbrar mais belo.
"O meu partido é um coração partido", disse o Cazuza, um músico brasileiro que já morreu.
E em Portugal tem-se votado quase como se prefere os actores das novelas, quase ao nível do: -  ai o que eu gosto de ver representar aquele rapaz, que bem fala...
E por aqui se vão construindo mamarrachos ao lado de casas antigas com frescos, se vai roubando o estado e  matando gente que espera eternamente por operações, gente que existiu, atenção, gente boa que existiu e trabalhou, que pôs o dinheiro no banco e que esperou, que confiou e que pagou, gente que teve um nome e quis ser feliz e agora tem terra por cima.
Assim se têm ganho eleições, uma espécie de Sporting/Benfica, em que se ganha sempre por demérito da oposição e nunca por mérito próprio. Assim se tem destruído a identidade de um país que foi grande, que foi mágico, que tem isso lá dentro como um coração a bater tão triste.
Um país que tem Sintra e tem Lisboa merecia ser tratado com respeito. E que tem tudo o resto que aqui não cabe. E as pessoas que se sentam lá nos lugares eleitos devem todas ter pelo menos a espinha, os valores e o coração da padeira Luzia. Devem-nos depois o resto que a sua educação académica lhes deu.

Era uma vez um país de lagares e bom cereal, com coisas únicas que todo o mundo queria.
Agora é um país do obral, a construção não pode parar porque se tornou a única indústria para além dos serviços que são sempre dos outros e que aceitamos porque empregam os nossos. Um país em que o call-center é visto por alguns olhos jovens e indecisos como a profissão de futuro.
Salvam-se algumas coisas; a Oprah fala nos sabonetes made in Portugal como dos melhores do mundo, e temos a nossa amada literatura, as nossas artes em geral, os nossos jovens criativos cheios de ideias,  esperança e mais coluna, quero eu acreditar.
Mas temos também o pensamento de pacote, os generalismos, os regionalismos, as insensibilidades, a ignorância histórica em gente muito jovem que parece só ter coração para si  e nunca saberá calçar os sapatos dos outros. Gostamos do que é fácil, as frases que pegam porque toda a gente debita e não obrigam a reflexão nenhuma.
Eu gosto do meu país e da poesia dele. Aposto nele e gostaria de vê-lo belo e digno como merece ser. Com pessoas felizes a saberem reflectir fora dos pacotes dos outros.
Eu acredito que vem aí gente com mais vergonha na cara e mais coração.
Eu quero acreditar.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Há sempre uma ovelha negra



domingo, 20 de Setembro de 2009

alegria nos caminhos

Porque a arte nos salva
Porque a ternura da arte
aninhada em nós
nos pega fogo ao coração

E nos agiganta

E o mundo recebe com silêncio os nossos beijos
E à nossa volta está um coração de fogo com o amor do mundo
Que nos deixa e não temos medo
       Porque vai no vento
Sem nunca partir só porque nasceu

F.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Sou eu
Pai

Perdoa-me, pai, por não ter sido o teu melhor filho. Por não ter sido o teu orgulho. Liberta-me. Perdoa-me o meu destino.

Sei como a vida te fez ser homem, contaste-me e eu nunca esqueci.

Foste dos que atravessam as tempestades de peito aberto, dos que sujam as mãos e nem as vêem endurecer, como o coração.

Agarraste-te às certezas que conquistaste porque nunca tiveste Deus.

Hoje é como se ainda te acordasse naquelas noites de trovoadas em que a casa inteira se enchia de claridade e eu tinha medo. Tive medo até tão tarde, lembras-te?

E tu explicavas-me tudo, como sempre explicavas a vida, com muita ciência e pinceladas de magia e uma ordem secreta feita de uma qualquer harmonia que quiseste semear no jardim, na tua vida, dentro da tua casa, no coração dos teus filhos.

Sou eu, pai, este homem magro e só, que hoje sabe que não precisa de pedir desculpa por ser quem é mas que como já não pode falar contigo e tem o coração como naquelas noites das trovoadas te pede perdão.

Hoje fiz as pazes com quase tudo, poucos sentimentos profundos deixei para cumprir. Falta-me fazer as pazes com o amor que nos devemos.


Perdoa-me que tenha crescido mais parecido com a Madalena do que com o Pedro, perdoa-me que não seja nenhum dos dois e que tenha sofrido tanto para chegar aqui. Perdoa a criança que te idolatrava e que te escondia o sonho desejado de um dia, quando crescesse, ser uma menina.

Vestia tantas vidas pai, vesti tantas pressas, tantas ansiedades, perdi-me tanto, dentro de mim ruíam muros e carrosséis. Tremia-me a vida, pai, foi-me difícil a vida e tu não sabias.

Tu nada entendias e ias distraidamente perguntando, observando em particulares silêncios onde os teus olhos nadavam sozinhos entre a gente numa imensa desilusão. Não te zangavas, só não entendias e não quiseste saber muito mais do que eu queria contar. No fim éramos como dois estranhos, dois homens cada vez mais estranhos e menos inteiros.

Se os pais têm sonhos para os filhos, os teus riram-se de ti e contigo em tardes secretas de copos. E tu, embora me tenhas faltado sempre de uma certa maneira, faltaste-me cedo demais.

A gentileza também se herda, eu sei. A cerimónia gentil naquele sentido melhor que protege quem amamos mas também abre canais cheios de separação. Talvez por isso nunca tivéssemos trocado as palavras que tanto me faltam.

O dia em que estivemos mais perto de falar foi quando me separei e a Margarida, em lágrimas, anunciou as minhas verdadeiras preferências sexuais enquanto fazia a última visita formal à minha família. Depois bateu a porta, sem esperar mais questões. Ali ficámos todos, a percorrermos com os olhos os rostos uns dos outros, com vontade de verdade e de fugir, tudo ao mesmo tempo.

- O vosso menino, se tiver que ser, até gosta de mulheres. Ele até simpatiza minimamente comigo e também com outras. Mas, definitivamente, prefere homens. Disseste, tu, Margarida, pálida e louca, a tua voz com toda a força, ancorada na grande ironia, sem mais tempo a perder na tua outra vida que ali começava.

Eu escolhi o silêncio. Mais por falta de forças, porque até achava que a vida trabalhava agora sozinha, e tantos anos depois, já não era preciso fabricar mais.

Um imenso alívio, gelado de medo tirava-me qualquer fio de força. Aparentemente ninguém sentia vontade de comunicar. A Madalena suspirava que já não tinha paciência para histéricas com amor-próprio ausente e tendência para o delírio; a mãe recomeçou imediatamente com as suas viagens, arrumando telas, verificando tintas e apontando as suas armas ao branco que ainda a esperava. Como se nada pudesse ser mais normal e urgente. O Pedro deu-me um abraço meio perdido de cá estou e desapareceu. E tu, pai, no mais profundo desconsolo, olhaste-me longamente e anunciaste que já não jantavas. Depois voltaste atrás e disseste que estavas, como sempre estiveras, disponível para ouvir as minhas preciosas palavras.

Nessa noite escolhi beber. Queria anestesiar-me e fazer crescer as frases que te diria, como me apresentaria sem que deixasses de me amar, para tentar lavar a vergonha que receava que sentisses e que ainda estava em mim. Até terias por mim admiração, desejava acreditar com a ajuda de muito álcool.

Bebi e conheci as mais extraordinárias personagens, que me contaram histórias cheias de coragem e dor, gente que virou condenações do avesso, vidas-limite. Beijei pessoas que nunca mais vi, outras que já morreram, outras que aparecem hoje nas revistas prateadas.

Todas me falaram de alma e substância, do que realmente importa, o amor, e tudo me parecia naturalmente óbvio. Eu era uma boa pessoa. Feita dos valores que herdara, com uma sensibilidade gigante, e essa sensibilidade feita de muito desespero eram pés tão grandes que nunca até aí conseguira calçar. Acho que demorei muito tempo a descobrir que também eu podia andar.

Depois tive medo e não sabia como falar-te do meu coração já tão antigo.

Depois de muito silêncio demos um abraço e eu chorei. Não sei se choraste também porque ceguei nesse abraço.

Tu morreste, mas em mim és o homem vivo.

Hoje já não te peço desculpa. Sei bem quem sou. Sou teu filho e o que me deste é uma árvore. Há quem as faça arder e não as compreenda, são os seres maus que não pedem perdão. Há quem as proteja com a vida.

Ainda há quem saiba ser homem.

Perdoa-me pai, perdoa-me só.

Porque eu já me perdoei.

Foi difícil.

Perdoa-me por não ter sabido tantos anos que sabias amar melhor.



F.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

O Beijo de África

Sal. Calor. Bafo de repente como uma palavra bonita. Sinónimo: beijo de África.
Morabezza.
Olhos tristes sem respostas. Alegria nos gestos. A harmonia herdada da alegria. Sorrisos bonitos. A chuva e o corpo a respirar a roupa a secar. O prazer do corpo à chuva sem frio. O peito mais quente. Pedras azuis pelos caminhos. Cinzeiros triangulares de madeira com areia. O mar azul. O mar verde. O mar sem a maresia mas a confundir-se com água do céu. Beijo de África a deixar de ser só poesia e a significar unidade. Terra e pertença e coisas que não estão podres por dentro. Coisas só podres por fora dadas por mãos que não tocaram as águas.  Os homens melhores. Os homens inteiros. Alguns felizes. Outros não. As cores das casas. O pouco o nada e o muito. O que isto significa. A coragem. As possibilidades. O amanhecer como uma carícia de deus. Os gritos-canções dos pássaros e as cores do amanhecer que já não sei dizer que cor têm. Antes do beijo de África sabia dizer melhor a cor das coisas. O calor no corpo sob a água fresca. O corpo a amanhecer. A querer mais do coração dos outros. O meu coração a alargar e a largar. A saber da liberdade de um dia poder partir ou ficar. Os sorrisos bonitos. As possibilidades da alegria e da dignidade. O corpo feliz a desejar isso enquanto celebra o sol e a água e a tempestade. A querer enviar isso dentro do coração dos pássaros que dizem às vezes as coisas aos outros homens. Que enviam a força e outras magias, no canto, no grito, para dentro de outros corpos.
Sal. Calor. Bafo de repente como uma palavra bonita. Sinónimo: beijo de África

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Acho que a palavra feminista deixou de existir. Segue notícia do Público on line

Sudão: mulher condenada por usar calças foi libertada
A mulher sudanesa julgada ontem em Cartum por ter usado calças em público saiu da prisão após o sindicato de jornalistas ter pago a multa de 209 dólares a que fora condenada.
Lubna Hussein podia ter sido condenada a 40 chicotadas, depois de ter sido presa, em conjunto com outras 12 mulheres, sob a acusação de usar vestuário indecente. O tribunal decidiu ontem substituir essa pena numa multa de 209 dólares, em alternativa a 30 dias de prisão. Mas Lubna, uma ex-jornalista que trabalha actualmente para as Nações Unidas, não aceitou pagar a multa, como forma desafiar a legitimidade da lei.
Libertada hoje, após o sindicato dos jornalistas ter pago a multa, Lubna não ficou satisfeita. “Tinha dito aos meus amigos e à minha família para não pagarem. Não estou feliz, porque há 700 mulheres presas que não têm quem pague por elas”.
Dez das 12 mulheres presas com a ex-jornalista foram chicoteadas e Lubna usou o seu caso para pressionar as autoridades sudanesas numa matéria em que os agentes da autoridade têm uma grande latitude para definir o que é e o que não é “decente”, refere a Reuters. Ontem, compareceu de calças em tribunal e admitiu recorrer da sentença, por não se reconhecer culpada

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Ele disse:
Vejo uma montanha.
Era ela, era a anca dela.

O quarto tinha sombra e o pestanejar do sol.

Vejo uma montanha.
E contornou-a os com os olhos e a ponta dos dedos.

Ela disse: - E vês rios?
Ele disse que sim. Que via rios e leitos verdes e azuis.
    Que sulcavam a montanha e desaguavam em terras de gente feliz.

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

domingo, 6 de Setembro de 2009

Escreve-me.

Escreve-me uma carta a dizer que o mundo vai trocar a cobiça por mais alma e voltar a honrar as árvores. Escreve-me isso e assegura-me que é mesmo verdade.

Assina a, sempre tua,

 Princesa de prata que dorme às vezes sobre as águas.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

O Monstro

O José Luís Peixoto está a tornar-se um monstro. Daqueles monstros imensos da Literatura.
A minha amiga Natália diz que ninguém pode escrever assim. Eu concordo plenamente. Mas pode.
E escreve.
Para quem quiser, para além dos livros dele, já bastante conhecidos, aqui está outra porta para o reino:

http://bravonline.abril.com.br/blog/joseluispeixoto/ 

"não faças caso"

Diz a minha avó, filósofa e minha eterna fonte de inspiração.
Assim como diz outras coisas maravilhosas como "uma pouca de xica maroca" e "às vezes faço de qualquer coisa uma ladeira" e diz "ele é teimoso até mais não"  e outras alentejanices que ando a anotar. Hoje tirei-lhe uma foto linda ao pé de uma das suas muitas plantas de estimação, um feto gigante. Um dia escrevo um texto sobre ela. Vai ser difícil, o texto. Ela é muito completa e linda. E sabe muito bem tratar das plantas e também acha que é a melhor pessoa do mundo a fazer isso. E sabe sempre as datas de tudo, trata o calendário por tu, algo que invejo profundamente. E sabe das luas e  e tudo o que há a fazer nesse tempo e em todos os outros que observa com essa sensibilidade tão poética que acho sempre que é do Sul. Acho que a idade lhe apurou o olhar sobre as coisas, lhe manteve os conhecimentos e a noção exacta do tempo de cada coisa. 
Mas do "não faças caso" gosto especialmente. E gostava que ela estivesse mais vezes ao pé de mim a dizer-mo. É que às vezes também faço de algumas coisas rasas uma ladeira e faço caso de coisas que não são caso nenhum. 

Ditos de um amigo sobre a traição

"O que custa é a primeira vez, depois torna-se um vício"

(para reflectir, questionar... ou nem por isso. Só mesmo para registar as ideias alheias que é um vício que não me custa)

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Um verbo

Envelhecer. Nunca pensei muito nisso. Nem muito nem nada.
Mas hoje ocorreu-me que quando era miúda ou adolescente nunca me preocupava se teria alguma coisa entre os dentes. Porque não tinha. Agora posso ter. É algo que acontece, que agora passou a acontecer. Nunca tinha visto a minha pele das mãos a mudar porque era sempre igual. Nunca tinha pensado tanto nas atitudes das pessoas porque não pensava muito, sentia mais.
Nunca tinha pensado que um dia ia deixar de comer carne, nem usar nozes de saponária para lavar a roupa na máquina.
Não sabia que ia ter a excitação de uma criança a tomar algumas destas decisões e a pô-las em prática. Uma criança que fica mesmo muito criança e que quase ninguém consegue aturar.
Sobretudo não pensava que envelhecer me podia acontecer.
Sinto-me envelhecer quando bebo um copo de vinho (um só) ao jantar e parece que já não vou conseguir mexer-me muito mais.
E nunca serei velha porque não vou deixar de apreciar um bom copo de vinho e tudo o que aquele momento contém. Quando penso nas uvas a amadurar ao sol. E nas planícies e nas árvores e no vazio imenso e azul do olhar de um certo pescador com fé.
Nasço.
Sinto-me envelhecer quando decido que não quero perder tempo. Sinto-me sempre criança quando percebo que não deixo de me espantar com a beleza das coisas mais simples e que a troco a rir por quase tudo. E que o tempo, afinal, como eu já sabia mesmo antes de o pensar, foi inventado.
Sinto-me envelhecer quando digo a uma amiga ao telefone: - sabes, as coisas não são fáceis... e ouço um riso do outro lado, um riso sem tempo que se cola ao meu e temos outra vez quinze anos. E as coisas passam a ser fáceis outra vez. E é a ternura a levá-las pela mão naquele momento.
Acabo de nascer quando ando vestida de alegria ao encontrar alguém muito especial, alguém novo e especial na minha vida, quando falo mais vezes com as minhas amigas e amigos de sempre e quando lhes digo tu sabes…
Quando toda a gente quer sair muito e rejubila com muita animação, penso: estou velha.
Mas quando fico em casa ou num jardim e leio algumas palavras, quando vejo alguns filmes, a minha mãe acabou de me trazer ao mundo outra vez e com mais força e abro umas janelas enormes por dentro que me vão dourar os dias do futuro.
Sinto-me envelhecer quando recordo como tudo no meu futuro, em criança, tinha a cor das possibilidades infinitas, ladeadas por palácios e castelos com seres maravilhosos e fogo-de-artifício.
Sinto que ainda sou essa quando em algumas manhãs sinto que as possibilidades são mesmo infinitas e existem nos meus gestos e nas mãos dos outros, que as surpresas só são fantasmas para quem não os vê e que respiram mesmo no mundo, a borbulhar dentro das pessoas. Respiro o travo disso e sinto que nunca ninguém amou a vida assim. E é dia de fogo. Dia de festa do futuro que é presente. 
E envelhecer passa a ser um verbo como nascer, só diferente nas cores e nas formas que às vezes o nosso corpo aceita.
Enquanto houver poesia em mim ela estará no mundo e à minha volta. E ela sempre me salvou. Não há ruga nem espinafre nos dentes que lhe meta medo.
Enquanto não deixar deitar-se em mim aquela coisa baça dos olhos e dos ombros encolhidos do é assim, o que é que se há-de fazer, continuo novinha em folha. É a minha primeira conclusão da primeira vez que pensei que envelhecer me podia acontecer.
Enquanto tiver na memória acesa que alguns dos tempos mais felizes da minha vida foram aqueles em que vivia com um tão pouco que era tudo, numa casa fria e janelas de madeira, em Dezembro banhos de água gelada e aquecida em bules azuis e só eu e o meu cão. Nem sofá nem TV nem dinheiro, só eu e a minha liberdade. Enquanto sentir a força disso, é sempre dia 11 de Julho.
Enquanto teimar que hei-de ser feliz todos os dias, muito feliz, nem que seja um bocadinho muito grande mesmo com uma coisa muito pequena, estou como antes e como sempre. Nova, nova, nova.
Renascida.

domingo, 30 de Agosto de 2009

Não fui eu que pus, juro. Em nenhum dos sentidos. São de um dos semi-habitantes do Adamastor.

Crónica do território da alegria

A história começa com pinhões partidos à pedra. Havia quem os juntasse a todos, depois de partidos, numa mão cheia. Havia quem olhasse para isso, e embora gostasse mais de os comer um a um, imitasse e também enchesse uma mão mais pequenina.
Depois a história continua com gansos ameaçadores e tenazes que nos perseguiam durante muito tempo. Mas nós tínhamos fé e havia muros e caminhos. Mas o barulho e a agressividade dos gansos era coisa de respeito.
Havia o sabor das nêsperas quando era tempo delas, o das azedas que era sempre o tempo delas e aquele lindo triângulo de flores roxas que crescia ninguém sabia como nem porquê, no Outono ao fundo do pequeno bosque.
Havia o castelinho e as escadas do castelinho e a sensação de estar cá em cima a sentir o sol nas pernas que ganhavam a primeira penugem. Havia os baloiços de madeira e as árvores imensas que vimos dançar tantas vezes. Havia os lagos misteriosos, o da escadaria e os outros. Um era o do silêncio e do busto de pedra, antes do mirante logo a seguir à horta. Tinha ao lado esconderijos com azulejos tão bonitos onde os artistas conseguiram parar o tempo.
E havia os outros, até aquele mais pequenino onde viviam uns bichinhos minúsculos muito activos que nos diziam que eram sanguessugas. E que nós acreditávamos que até podiam ser e devorar-nos os inexperientes dedos.
Havia meninas de oitenta anos que foram meninas para sempre com histórias de vida cheias de mistério e que tinham capelas dentro de casa, lugares lindos onde eu respirava de outra maneira e budas de ouro maciço, bonecos dourados e articulados que fingiam que fumavam. Eu acreditava.
Havia os cães, que eram mais nossos amigos do que das outras pessoas. Havia coelhinhos sempre a nascer e havia uma cadela carente e especial que se chamava Violeta e a sua eterna rival de alma branca que se chamava Fofinha.
Havia as gemadas e o melhor arroz doce do mundo, com desenhos artísticos de canela em pequenas tacinhas de barro. Havia tanto amor no meio disto como nunca saberemos dizer.
Havia os ovos que se levavam para casa ao fim-de-semana que toda a gente sabia que eram os mais amarelinhos de sempre e os armários com a loiça antiga.
Havia o Natal e os centros de mesa feitos por nós com o centro em barro e coisas verdes e castanhas que íamos colher. Depois teria uma bola ou duas e velas. Eram bonitos.
E havia o mirante. E a salinha de chá com histórias contadas em frescos esbatidos e cores adormecidas de festas em tempos muito antigos. E havia a portinhola verde-escura para onde falávamos e fazia eco porque tinha água lá ao fundo. Havia as histórias sobre os subterrâneos da quinta, que também tinham água e passagens e portas e chaves.
A história podia continuar com as chaves que eram gigantes para mãos pequenas mas que eram mesmo muito grandes na realidade das mãos adultas.
E seguir o caminho da estufa e do cheiro morno e puro de terra. Como um bafo suave de verde que a terra dá. E ir até ao último degrau de pedra até ao mirante. E fixar-se nos sinos gigantes do mirante e ficar aí a ver a paisagem.
Nessa respiração. Que podia ter o sabor dos figos e do pão com manteiga e açúcar. E o cheiro e a beleza dos cachos de glicínias.
A história podia descansar aí nesta crónica sobre o território da alegria.
Mas ela teima em voltar mais vezes. Universo grande dentro do território da alegria. Respira profundamente. E volta.
A alegria. Dentro de nós ela persiste.
Como aquele triângulo de flores roxas.

Nina e Frida

Não me deixes. Escreve-me. Por favor.
Se me deixares eu vou entender. Como entendi tão cedo que um pôr-do-sol não dura mais do que aqueles instantes.
Se sobreviver juro que vou perdoar-te e escrever-te sempre, mesmo que esteja do outro lado do mundo.
Não me deixes.
Se me deixares não me esqueças nunca.
Eu pintaria o mundo por ti, de ti, com as tuas cores que eu vi de pôr- do- sol eterno.
A nossa mortalidade faz-nos intensos
Eu sou poeta e tu és a minha montanha mágica e os meus abismos escuros
Sem ti não há mais poesia e as folhas das árvores vão calar-se por respeito ao meu desgosto
Por isso não podes mesmo deixar-me
O mundo fica mais triste quando os amores se deixam
Mas se me deixares nunca me esqueças
Deixa que entre pelas janelas abertas e dentro de algumas palavras
Que me derreta nas tuas lágrimas de alegria
Que me espreguice nas de tristeza
Recebe aí o meu sorriso
Não deixes nunca a nossa clareira tão pura onde vivem os segredos que não precisámos de dizer
Esta vida é pequena, o tempo é pouco para os corações grandes
Mas eles alargam como as barrigas para terem os filhos
E as vidas alargar-se-ão para outras vidas
Hoje tenho a certeza

Se me deixares
Sei que nunca esquecerás o travo da vida a incendiar-te os dias
Ele estará na claridade dos teus olhos
E o teu peito será grande e dará coisas de valor ao mundo e aos outros
E assim nunca me deixarás

Este texto nasceu da leitura das cartas da pintora Frida Khalo: Escritos de Frida Kahlo, (edições Círculo de Leitores) e de ouvir muito Nina Simone, em Ne me quite pas
"À procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal".



José Luís Peixoto
In Cemitério de Pianos

sábado, 29 de Agosto de 2009

Mesmo assim casei contigo

Eu tentava ir ao funeral da minha avó. Tu ias a conduzir e íamos em direcção ao aeroporto para regressar ao meu país para eu ir ao funeral da minha avó. Tu não querias que eu regressasse. Então lançaste o carro onde íamos os dois para debaixo de um camião.
Eu não fui ao funeral da minha avó. Fomos ao hospital e estava tudo bem. Com o meu avô não estava tudo bem, nem com a minha mãe, nem dentro da tua cabeça. Dentro de ti estava tudo mal. Mas tu não tinhas morrido nem eu.
Mesmo assim casei contigo.
Eu amava a minha avó e a ti hoje já nem sei, por favor não me perguntes.
Mesmo assim casei contigo.
Depois não consegui mais olhar para ti. E já sabia que a tua loucura não ia prender nem mais um fio do meu cabelo, não íamos mais atropelar camiões para salvar coisa nenhuma.
O meu coração não quis mais respirar nas tuas mãos que tinham tanto medo e que o apertavam tanto.
Nem sequer pestanejava mesmo quando dizias que se eu te deixasse te matavas, quando abrias as janelas e gritavas que te ias atirar. Das poucas coisas que me lembro era o ruído das janelas a abrir, o barulho de que tudo ia rebentar.
Nada em mim se movia quando dizias em pormenor o que ias fazer com este e com aquele, com o primeiro que encontrasses e com os outros a seguir.
Nada. Silêncio a olhar a loucura.
Fizeste o que pudeste. Mataste-te como soubeste. Amigos teus ligavam a amigas minhas a ofendê-las. Vivi algum tempo com um animal selvagem cheio de um amor predador e eu fazia o silêncio dos índios.
Sem saber viver na selva.
Mesmo assim casei contigo. Nesse dia estavas bonita a lamber as feridas. Quase voltei a acender uma vela de ternura.
Nunca mais te vi.
Disseram-me que te atiraste muitas vezes, das mais variadas formas, para debaixo dos camiões maiores que encontraste e para dentro de todos os abismos que te acolheram.
Por mim sei que deixei de te ver e de te ouvir. Deixei de te sentir e isso é o pior destino que pode acontecer ao amor.
Desculpa mesmo assim ter casado contigo e não saber na altura que às vezes há pessoas que não se podem salvar dos abismos que só sabem desejar.

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Consciência

Descobri que é uma das grandes e difíceis palavras. Ando a tentar aninhá-la em mim.
Generosidade é a sua irmã gêmea. Que quero tornar minha irmã.
Dizem que não se escolhe a família. Mas dizem sempre tanta coisa... 

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Retratos salteados de pessoas e bancos sem jardins

Onde moro agora há uns recortes de relva e algumas árvores. Há um banco de jardim, mesmo só o banco, sem o jardim, onde costuma sentar-se um homem cego. De manhã logo cedo está à porta do prédio a fumar de óculos escuros. Eu penso que ele é cego porque nunca o vi sem os óculos e muitas vezes a mulher o acompanha, amparando-o. Ele fuma no elevador, mesmo depois do administrador do prédio ter colado folhas com palavras gigantes, escritas à mão e cheias de erros, a pedir por favor para não se fumar nos elevadores. Não deixa de ser cómico que a única pessoa que fuma no elevador seja também a única que não consiga ler os enormes cartazes espalhados pelas escadas. Há pessoas que corrigem os erros dos cartazes do administrador. Pessoas ousadas que não eu, juro, pesar da enorme vontade que já tive. Às vezes o administrador escreve um papel novo com os mesmos erros e as pessoas desistem. Por algum motivo as letras bem desenhadas ficam mais carregadas quando se assina: A Administração. Deve dar um poder qualquer nas veias que provoca maior pressão nos dedos ao escrever essa palavra. À tarde o homem cego senta-se no banco de jardim sem jardim e ouve futebol com um rádio daqueles pequenos que se costuma usar, vá lá saber-se porquê, junto ao ouvido, mas que dá som à rua inteira. Ao seu lado senta-se a esposa e ao lado da esposa a eterna porteira. A eterna porteira quando conversa com a esposa do senhor põe a cara de lado e faz girar os olhos ao mesmo tempo, naquela postura sempre igual de quem, ao mesmo tempo que conta tudo o que sabe, não quer perder pitada do que pode vir a saber. Se é assim no resto do mundo não sei. Por aqui a pose é igual em todas, não em todas as porteiras, mas em todas as coscuvilheiras, que nós por puro preconceito e alguma experiência assumimos como sinónimos. Em frente do banco sem jardim há um cabeleireiro onde trabalha uma mulher sozinha que também, sendo bastante trabalhadora porque nunca a vejo parada, consegue ao mesmo tempo que estica e corta cabelo, ver bastante bem que entra no prédio ao lado. A um canto da praceta quase sempre rodopiam sacos de plástico pelo chão quando há vento e por vezes ficam pendurados nos ramos das árvores como se fosse um natal muito estranho e permanente que me irrita muito. Também há um rapaz muito alto e magro que às vezes faz chichi na rua,mesmo estando à porta de casa, quando é muito tarde e traz uns copos. Às vezes ouvem-se tiros ao longe num bairro manhoso que tem a estranha história de estar sempre para acabar e nunca acaba. Vai abaixo, dizem as pessoas há anos do sítio a que outros por certo chamarão lar. Às vezes diz-se que os tiros são porque chegou a droga. Outras vezes diz-se que morreram pessoas e depois vem nos jornais a confirmar. E as pessoas falam entre elas e como que combinam deixar de sair tarde à rua, como se isso não piorasse tudo como sempre faz o medo às coisas em que toca. Há ainda um senhor alheio a isto tudo, que passeia o seu pequeno cão a qualquer hora, quer faça sol ou seja madrugada alta, em noites de chuva e temporal bravo. É um senhor que percebe muito de cães e sempre os teve a acompanharem-no pelos anos. Há mais coisas e há mais pessoas, mas à noite pouco se ouve e chego a ter dúvidas se este é mesmo o sítio sobre o qual escrevo. De manhã volto a ter a certeza que sim. Às vezes, raramente, ainda passa o amolador. E não tem chovido quando ele passa, algo totalmente estranho para mim e que me preocupa. Esta não é uma crónica sobre paixões revoltas sobre Lisboa porque o coração está hoje totalmente preenchido pela saudade. De tanto dela se alimentar, exagerou e mal se mexe. Ao ponto de só se querer deixar estar assim, muito quieto, à espera de ouvir andorinhas ou gaivotas, ou quem sabe o amolador numa tarde de sol com chuva a seguir.

Tão bonita

Estás bonita hoje, mesmo depois do ar condicionado e da enorme dose de pena de ti própria que colocas a seguir ao creme protector. Mesmo depois do ar condicionado e do ar desconfiado e triste das pessoas no comboio. Fica-te bem essa blusa, foi aquela, não foi?.. Mesmo sem o brilho nos olhos ficas bonita na mesma. Juro. Não se colaram a ti os medos do presente, nem a falta de cor das cores podres do subúrbio, nem te afectou o tempo que não temos para a paixão. Sei que ainda tens as palavras bonitas, vejo-as mesmo nos gestos que não fazes e nas ideias que não tens, nas varandas onde não estamos ainda. Não se nota nada que te perdeste e à tua voz na imensa guerra que tens travado mesmo sem braços. Mesmo sem os braços ficas bonita. Mesmo sem a vitória. Estás sempre bonita, mas hoje mais ainda, mesmo que não te sintas, que te pareças por dentro como uma cadela a perder sonhos e pelo, já até sem necessidade de festas. Sem sede e sem fome. Estás bem. A sério. Não me olhes com essa cara de quem se perdeu. Estás aqui. Não sentes? Sentes sim, não vês que falo contigo. A sério que estás. Oh, não digas isso, ninguém sabe bem quem é. Eu sei, eu sei que já soubeste. Mas é uma fase. Como não acreditas em fases? Não pode ser sempre assim como tu dizes, de ser sempre feliz. Acredito, claro que acredito que já foste quase sempre feliz. Garanto-te que pareces muito melhor do que te sentes. Pode ser que amanhã estejas então como hoje pareces. Não tenhas medo da depressão nem da nuvem triste do subúrbio, nem da gripe que toda a gente fala. Nem da bola, nem da mentira, nem da opressão nem da indignidade. Não se nota nada, juro-te, olhando assim para ti, não se nota nada em como te cortam por dentro. Se sangrar também não se nota, pomos um penso daqueles agora melhores, mais avançados. Bem sabes como tudo avançou. Não digas que não, qual guerra, qual mediocridade, não digas essas palavras que te põem aquela ruga grande na testa. Se ainda tens a voz da gaivota? Claro que sim, amor. Estás tão bem, com a blusa nova e as missangas. Está lá a voz, a gaivota e as asas. Sabes que te digo sempre a verdade, tirando todas as vezes em que não disse. Está lá a voz pura e limpa. Mesmo. E mesmo com a base toda da desesperança e o ar condicionado, estás tão bem que ninguém, mas mesmo ninguém diria que tens medo de a perder.

quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Crónica da teimosia de amar Lisboa

A minha teimosia de amar Lisboa é muito pior e mais crónica do que a de ver beleza nas pedras da calçada. Queria dizer-te, explicar-te, principalmente a ti que acreditas amar-me, sim, a ti que me amas, como é, por onde começa, o tamanho que tem, o que ocupa e o quanto me arde. É difícil. Quando falamos das nossas grandes paixões as palavras parecem anões tímidos e que nunca vão chegar a ser sequer visíveis. Falar das nossas grandes paixões é como falar de magia. E a magia não é coisa que se soletre. Explicá-la é uma espécie de ensaio para coisa nenhuma. Além disso é tarde. Tão tarde. Os olhos ardem-me e penso que poderia nunca mais acabar de escrever tentativas de te explicar esta minha enorme paixão que desisti de tentar explicar. Amuei. Não vou mais tentar explicá-la. Vou falar dela. Descreve-la como fazemos como quando estamos muito apaixonados e paramos no tempo e em palavras e silêncios para dizer como cai uma madeixa de cabelo num certo rosto que é das nossas vidas. Pintar essa paixão como fazemos com o som de uma voz no nosso coração. O baque disso. Vou tentar pintar a minha paixão com alguma cor, não para que a entendas, mas para que saibas que ela está em mim a rebentar enquanto te falo pausadamente, como se tudo estivesse calmo. Hoje não que é tarde e não tenho nem mais um cigarro, mas quero pintar-te o rosto de uma cidade que tem igrejas com enormes anjos azuis lá dentro, que tem pedra branca e cheiro de rio, que tem pinheiros e miradouros e quiosques que parecem poemas. Que tem calçadas que parecem histórias intermináveis cheias de claridade, que tem putas que fazem de fadas e fadas que fazem de putas e olhos que vêem isto. Que tem o rio como uma luz. Uma luz onde os poetas se emocionam de tudo e de nada.

domingo, 2 de Agosto de 2009

Tu estavas no coração da minha primeira madrugada

Tu vives nas paredes e nas fissuras do que sou

Na música que abrigo por dentro

Tu sorris no espelho do tempo

E estás em mim quando erro no sorriso dos outros

Tu encontras-me nos sonhos

E na certeza dos sentimentos

Dignidade

Humanidade

Tu lembras-me os caminhos verdes das palavras

Que amamos

Tu partilhas comigo

os homens que têm letras maiores

E palácios dentro do peito

Nunca caberás

Nunca caberemos

Só no amor o incêndio pode saber à verdade das árvores

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Os tempos

"PJ de Braga deteve homem que se escondeu dezasseis anos em cavernas". É uma notícia de um jornal. "Festas da Gripe em Londres para forçar resistência ao vírus" é outra notícia que me fez pensar. Nestes dias amo a arte como a uma espécie de inocência única da humanidade e uma parte da cura.

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

bom dia

Vozes de café
Negras e ternas
com ritmos de canela e erva doce
Sonhos de café
Colheradas de presente
Tragos quentes de futuro

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Crónica de uma zanga ou a tristeza das nossas TV´s

Tenho amigos que continuam a zangar-se. Felizmente. Como eu.
Os meus amigos que ainda se zangam sabem que me enervo solenemente com a mania que os canais de televisão têm de nos desrespeitar, passando os genéricos de filmes e séries a velocidades ridículas, como se gozassem com a cara e com os nervos das pessoas que querem saber mais sobre o que estiveram a ver.
Sempre que presencio esta falta de respeito e esta ILEGALIDADE, sublinho para quem não saiba:- isto é proíbido. Mas ninguém parece importar-se o suficiente para que mude. E anda mesmo mesmo a passar das marcas.
Segundo soube há já alguns anos, não é permitido por lei passar essas informações sobre realizadores, actores, directores de fotografia e todos os outros à velocidade que por aí se pratica alegremente, que é esta: queria saber, não queria? mas agora não dá, porque está aí a publicidade a entrar...
E isto, para além de punível por lei, não se faz.
Porque temos todos o direito de saber quem foi o actor, o director de fotografia, até quem sabe, para acompanhar outros trabalhos do mesmo.
Era muito bom que um destes profissionais fosse sobrinho ou filho dos responsáveis por esta palhaçada e que estivesse, orgulhoso de ver o seu nome presente, num trabalho que realizou. Aí de certeza que as coisas se iam sentir na carne. Embora provavelmente não mudasse nada.
Não entendo afinal porque é que em algumas situações é tão importante cumprir a lei e noutras nem por isso. Afinal a lei não é obrigatória, é opcional.
E se um atraso na entrega do IRS, até por questões de doença, dá multa quase automática, a prática disto como se fosse um tique nervoso das televisões não dá nada.
Pior, se é grave ultrapassar a lei com a leveza de um desporto num canal privado, é constrangedor, uma imensa vergonha que isto se passe com canais estatais. Sim, já vi acontecer. Aí a minha frágil esperança ficou mesmo pequena e senti-me mais estrangeira do que nunca.
Ontem vi num canal o último episódio de uma série histórica, elenco de luxo, cenários belíssimos, e blá, blá, blá...
No final, não consegui ver nada sobre quem fez, onde fez, os profissionais e outras informações obrigatórias. E eu vejo perfeitamente e leio com rapidez.
Não sei como explicar o porquê disto a um jovem, a um jovem português. Cultura? apostas na qualidade e etc?
É que mesmo que a lei não seja assim tão obrigatória para todos, a vergonha parece-me bem que poderia ser. Alguma pelo menos.
Fico zangada e triste. Obviamente que sim.

Viagem breve ao tempo dos sonhos

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

11 de Julho

Quando era pequena deitava-me cedo. Não tinha medo do escuro. Só depois quando cresci e lia noite fora livros como a Felina e a Noite dos Mortos Vivos. Quando era pequena tinha férias grandes e lia os livros da Condessa de Ségur, dos Cinco e do Colégio das Quatro Torres. Na minha casa havia gavetas com objectos que eu gostava, cigarreiras antigas, postais pendentes e colares antigos. Havia álbuns de fotografias com a minha mãe grávida com chapéus de palha bonitos e vestidos floridos que abrangiam a paisagem. Fotos dela em rochas sobre o mar, no meio dos girassóis ou das papoilas. Tinha malas enormes e sapatos com plataforma, os mais giros que já vi. Quando era pequena havia lá em casa uma caixa com umas sapatilhas cor-de-rosa, leves e minúsculas, de quando eu andava no ballet e dançava o Bolero de Ravel para os pais no final do ano na festa do colégio. Eu tinha casacos brancos de lã com barcos bordados em muitas cores e botões de madeira, que a minha mãe fazia iguais para as duas. Eu tinha sapatos de atacadores de sola que faziam aquele barulho mágico dos passos pequenos nas calçadas brancas. Eu tinha um bibe amarelo com o meu nome e o meu número, que no colégio era o 280. Nessa altura nunca tinha pensado na estranheza dos nomes nem do rosto ao espelho. Eu tinha bichos-da-seda como todos os miúdos, e gostava de lhes fazer festas, assim como de ver sair os caracóis das suas misteriosas casas e observar os seus olhos recolher quando lhes tocávamos. Eu lembro-me de ver centenas de pirilampos a fazerem uma festa num lago da quinta à noite e de pensar que era a coisa mais maravilhosa que até à altura vira. Continua a ser… Tinha um fascínio por caixas de música com bailarinas que rodavam e colares com contas antigas e pedras que eu sabia que tinham muitas histórias. Eu gostava de dançar sozinha de olhos fechados no corredor da minha avó, de imaginar grandes aventuras dentro de qualquer um dos seus armários. No fim-de-semana tinha a quinta, o que podia sempre significar ver se tinham nascido coelhinhos, pintos ou patos, abraços e corridas com os cães companheiros da quinta, podia ser fugir de gansos, fazer cabanas em árvores e casas minúsculas nos buracos das pedras para bonecos que eram gnomos. Podia ser pinhões ou azedas, rosas de santa teresinha ou madressilvas. Na quinta havia arroz-doce, nêsperas, quartos frescos e claros, baús com os livros de estudo da minha mãe e porcelana antiga. Da quinta sopram histórias que podem ter musgo lá dentro. Ou o canto do mar. Que enchem as linhas e as praias da minha vida. Onde sonho. Onde sempre sonho.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Super Alive - Dave Mathews Band- 2009

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Centro de Emprego e Inserção Profissional

São nove e vinte e oito e tenho na mão uma senha cor-de-rosa. É um papel pequeno, de um rosa esbatido, que custa ter na mão por motivos que agora não vêm ao caso. Para ter este papel é preciso chegar muito antes da hora. E nenhuma hora antes da hora é demasiado cedo. Temos que ter esta senha para depois dizermos a quem nos atender como ficámos sem emprego. Nesta altura estão mais de cem pessoas à espera da senha. Se quando for a vez delas não houver senha têm que voltar outro dia. Se houver, têm um dia inteiro pela frente. À espera. Se dúvidas existem, que se dissipem imediatamente. Meia hora depois da abertura do centro já não não entra mais ninguém. A minha senha diz número noventa e três. Chamam agora o trinta e dois. Que sorte! Bem cedo, quando são distribuídas as senhas está um senhor agarrado à máquina que expele as senhas como se fossem pequenas línguas que todas as pessoas arrancam com sede. O senhor agarra-se à máquina vermelha com as duas mãos e controla a sede das pessoas. É o seu diamante gigante, do homem novo, nervoso, com peso a mais e a tremer, a sofrer dos nervos já pela manhã. Coloca a cara como uma máscara. Por causa dos abusadores. Dos usurpadores de senhas cor-de-rosa, dos que o vão tentar enganar, dos que tentam passar à frente de quem respeita a fila, perdão, a bicha. Depois de atingida a meta da senha, cá fora acumulam-se as pessoas, todas com um ar portugalo-desanimado. Vejo algumas caras conhecidas, como um senhor que era mecânico quando eu era adolescente e que era o "Zé das Motas". O segurança faz trabalho de gestão e administrativo: grita e chama quem tem cartas para isto e para aquilo, avisa que já não pode ser e onde pode ser. Fala alto, decidido, não simpático, maquinal e disciplinado. Tem cerca de sessenta anos e pinta o cabelo de mais escuro. Tento vir cá para fora, respirar fora da respiração dos outros. Afinal, ainda tenho à minha frente sessenta narizes. Ao sair tropeço num amontoado de pedras de uma calçada esburacada. No monte de pedras repousam muitas pontas de cigarro, um símbolo nacional quase tão importante como o galo colorido. Enquanto reaprendo a respirar fora do peito dos outros, desvio- me das ilusões frias, derretidas em rostos como retratos nas rugas e suores de quem espera. Enquanto chamo um resto de alegria, vejo um incrível sinal dos nossos tempos verdes de esperança e cheios de mentira. Até parece que as letras escritas nesta montra são néon. Dizem: "furam-se orelhas sem dor".

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Azul-Julho

Julho tem cheiro de frutas de flores e de cor. Aprendi no Alentejo que as cores também têm cheiro. Soube disso no silêncio caiado de branco, fresco, na aldeia pela hora da sesta. Quando fora das portadas cheira ao sol de sempre a lamber as calçadas onde soam os cascos dos burros e as rodas das carroças.
Julho é o tempo das canções nas varandas à noite sussurradas, os corpos a deixarem crescer o calor devagar e a chamarem as memórias dos verões antigos.
Há vontade de águas claras e o cheiro da maresia e das rochas por explorar traz a força de tudo isso. Do peito aberto a respirar nas longas caminhadas, do segredo das conchas e das pedras brilhantes trazidas pelo mar.
Julho é azul e amarelo, cheira às flores do campo e às flores marítimas, à claridade simples de uma bebida fresca com o travo dos risos nas esplanadas.
Tem dunas salgadas e histórias lidas na areia, quando o sol é mais quente e ajuda ao sonho.
É sem dúvida um mês azul e se fosse uma bebida para mim seria uma sangria branca, hortelã e canela ao por-do-sol.
Julho traz ondas que quebram com doçura na lentidão das mãos que se abrem, traz camas de rede e lábios salgados.
Traz-me a infância no enorme búzio e a vida a dizer ao corpo que é tempo de celebrar.

Julho

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Alentejo Terra parida Num parto repousado Por não sei que matrona natureza De ventre desmedido Olho, pasmado A tua imensidade Um corpo nu, em lume ou regelado Que tem o rosto da serenidade. Miguel Torga

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

"Se eles te perguntarem: já está? Podes responder: não, não está. E tudo continua. Se não tiveres o caminho entre a tua casa e o supermercado, terás outra coisa, qualquer coisa. Se não tiveres um texto como este para escrever, terás outra coisa que desconheço mas que sei que existe. Por isso, respira, respira, respira." José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, excerto da crónica Respira

Ao José Luís Peixoto

Antes, quando amava muito um escritor, quase sempre ele já tinha morrido ou vivia num país muito longe e falava uma língua difícil de aprender. Hoje, quando leio as crónicas e as palavras de um escritor que hoje amo, fico transtornada de alegria por ele estar perto e poder saber, através das palavras que conhece tão bem, como é em mim a alegria de o poder ler. Como esse segredo vibra na minha vida como uma surpresa que faço durar. Quando às vezes acabo de ler as suas palavras, fico exaltada como se tivesse chegado uma carta com a melhor notícia do mundo. É como se ele dissesse as medidas exactas do silêncio e das sombras dos animais no meu peito. É como se ele pudesse saber e respirar ao mesmo tempo que eu a poesia antiga do sol no quadriculado dos estores. Ele sabe desses raios de sol. Às vezes depois de o ler até parece mesmo possível escrever a mais iluminada frase, o mais musculado poema, cheio de coração. Como se, ao encontrar na rua esse escritor me fosse possível explicar-lhe alguma coisa. Alguma coisa, mesmo pouca. Poderia dizer-lhe devagar as suas palavras como as sinto chegar e arrumar-se em mim. Com a sua música própria e invulgar, feita das verdades da minha infância, que guardo crescidas. O que aconteceria se com ele falasse seriam palavras tímidas e suadas, sem direcção, como os olhos que dançariam e não saberiam dizer o peso de alguns silêncios que ele me deu nas linhas certas, habitadas. Às vezes nas suas palavras está a respiração do mundo que eu sei. Que mesmo quando tudo à volta, por dentro e à volta do mundo diz que não, a força de uma certa respiração diz-me que afinal sim. Como eu sempre soube, sim.
"Carregamos todos a mesma pobreza: nascemos, crescemos, lutamos, amamos e vamos morrer. Alguns reeinventam cada etapa e assim constroem uma biografia:tornam-se heróis, criminosos ou santos; outros, colados ao mundo, só têm tempo para sobreviver. E, dessa sobrevivência, morrem. A biografia é um privilégio." Rui Nunes- in JL, 17/30 Junho

domingo, 14 de Junho de 2009

"Ele há coisas..."

Há coisas que não percebo. Porque insistem as pessoas em usar algumas eleições para atingir resultados e assuntos de outras. Não percebo porque é que substituiram alegremente e em tantos lugares a nossa especial fatia de pão para acompanhar a clássica sardinha, por uma também simpática(mas para outros palcos, entenda-se) carcaça.
Não entendo o fenómeno Xutos nem os Delfins. Não percebo porque é que tanta gente sabe com quem casam e de quem têm filhos as celebridades que alguém um dia assumiu como tal.
Não percebo como se passou a achar extremista uma preocupação real e efectiva com o planeta. Não percebo como é que a cor de uma pessoa pode dizer alguma coisa sobre ela a outros. Não percebo como se pode tratar as ruas, muito menos as radiosas e antigas, as poéticas calçadas de Lisboa, como caixotes de lixo ou depósito de dejectos humanos e animais. Não percebo como se pode ser indiferente ao sofrimento dos animais, só porque eles não andam nas mesmas patas que nós, nem sabem ler jornais. É como se não tivessem também um coração que batesse e a mesma vontade de viver. Não percebo porque é que isto poderá parecer isto e aquilo, se está tão perto de um mínimo qualquer que se calhar me engano a medir. Humildemente aceito explicações, para uma tão modesta amostra do que não entendo.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Há muito tempo atrás...

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Aljezur

Lisboa ao sol

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Árvore

In the Mood For Love - Soundtrack

Um degrau A música ecoa Um passo a casa cheia O corpo duro As nuvens espessas Um degrau O comboio passou O comboio que nunca chega Já passou O pé estendido A perna sabe O coração tem memórias Soltas pela escadaria Um degrau Tão poucos segundos O rei não veio Ninguém salvou Ninguém O pé estendido Silêncio O nome da solidão em branco gelado A cortina vermelha e urgente do tempo Um degrau Ninguém à espera É só fazer A razão não veio A fé atrasou-se Só mais um passo por agora Um degrau A outra perna não sabe Só aprendeu a subir Só mais uma vez A perna morta A perna viva A música repete-se A pedra é fria Não há sapatos que sirvam ao passo que não se dá.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Criança

"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis - elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus."
Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

Portugal 2009 ou Suspiro Profundíssimo

"Há muita gente que tem inveja do meu pai. Ele começou a subir na vida, depois de ter umas ovelhas abriu um café e depois tirou a carta de tractor...Há muita gente que o inveja por causa disso". Esta declaração foi transmitida num noticiário, feita pelo filho de um proprietário de um pequeno café onde explodiram duas botijas de gás. Depois disto vem um vizinho contar, cheio de sorrisos como se de uma festa se tratasse, em como acorreu em cuecas, durante a noite, ao estrondo. Pormenor sempre presente: o sorriso da TV, colado, sobre a desgraça, sobre tudo e sobretudo.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

A pureza dos bichos. A indelicadeza dos homens sobre a arte e os sorrisos dos outros homens

Sapato não é adubo ou retratos de miséria para além da pobreza

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Cavalo à Solta - José Carlos Ary dos Santos

Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve, breve instante da loucura Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura

domingo, 10 de Maio de 2009

Às vezes envelhecer no Ocidente

sábado, 9 de Maio de 2009

-Ainda bem que te aproximaste. -Sim. Fartei-me de olhar o céu a sós. O céu está muito tempo em silêncio, só a existir. -Vês como nos esqueceram, mal veio um prenúncio de sol? -Somos chapéus de chuva, é normal esquecerem-nos quando vem o sol. Não somos sempre abrigos, às vezes somos impecilhos. A nossa vida é breve e eu já me habituei a ser esquecida em cadeiras, cantos e esquinas. Fecho-me bem com isso. - É. Se calhar sou um chapéu de chuva que quer abrir-se em outra coisa, que hei-de fazer… -Podes sempre olhar o sol e imaginar, daqui, que percorres, as ruas e as aventuras nos corpos das pessoas que te levassem. -Um dia salto daqui, nasço em laranjas e vermelhos, faço uma dança de chapéu que se abre e que pode ser abrigo do Sol. -Boa ideia. Podemos fazer isso juntos. Imagina estas caras sérias, desistentes das surpresas, quando amanhã nos virem dançar, juntos, daqui mesmo a saudar o dia -Sim. Vamos amanhã nascer assim. Ainda bem que te aproximaste.

domingo, 3 de Maio de 2009

sábado, 25 de Abril de 2009

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução

No tempo em que não tinhas nascido Ouviras ecos de um país em ruínas adormecido Com espasmos de frio e calor e fome e desumanidade Sem espinha mas com correntes e muros altos E a vida não era inteira nem o peito Queriam-se arrumadas e mortas todas as letras E as palavras Escadarias de sangue e dor Tão repetidas Falsas e fracas como águas paradas E as outras As que se queriam dizer viviam sem dormir Espancadas e quase loucas de vontade Nesse país onde também o sono temia a noite Viviam almas encarceradas no que não sabiam Rezavam-se os sonhos de um dia que era apenas a súplica de um dia Esse país onde não saberias respirar Encheu-se um dia de soldados tinham flores vermelhas que eram cravos Que quiseram tapar os muros do bolor Essas paredes que lembravam peles queimadas com beatas Eles encheram essas pedras sombrias em carne viva De flores e canções e de Abril e de revolução Até que caíssem os homens das cadeiras dos teus pesadelos que existiram No antigo país em ruínas No teu país com janelas pequenas de arame e ferrugem Um dia esse país foi vivo e foi País E mesmo antes que respirasses Acordou num grito novo Na madrugada mais pura Andou direita a coragem Cantou palavras que eram as canções da vida inteira de um país Nas gargantas uma ave com as asas de sempre descobertas As asas e a voz de um país a nascer

terça-feira, 21 de Abril de 2009

sábado, 18 de Abril de 2009

Sépia

A ponte velha de Florença. As fotografias. O sorriso branco do meu pai nas fotografias na guerra que ele sentiu. O coração virgem do meu pai na guerra que não sentiu. Sépia. A minha tia nos campos a dizer palavras que não devia. Fotografada na minha memória pelas histórias que me contaram. A minha tia a morrer e a fumar e a ler os dias inteiros. Os cigarros e os comprimidos e os livros. Os miradouros de Lisboa. O rosto ao espelho. O rosto jovem e pálido a ver pela primeira vez a morte. A força quase a cair. Qualquer raiz a prometer a beleza. Essa religião. O silêncio. A casa vazia e as janelas com portadas brancas e o verde lá fora O livro com as palavras a arder O sorriso doce do passado num trago de uma bebida qualquer A minha mãe tão bonita com um chapéu branco a rir e por detrás o mar A minha avó na janela O ar dos baloiços na quinta As flores roxas em triângulo O mirante com sinos da quinta, o bosque e o eco do bosque O fundo do lago Os desenhos, pássaros e versos com canela do arroz doce da avó da quinta O teu nome As sombras, o peso, a importância do teu nome A espuma eterna das ondas A dor nesse espasmo das horas Músculos, vértebras, obrigação da terra A poesia do sangue nos momentos em que as palavras sobem com coragem ao palco Onde têm que derramar uma cor qualquer

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

terça-feira, 14 de Abril de 2009

a cor do sonho que adormeceu no meu quarto

ciao bella

domingo, 5 de Abril de 2009

As aves que voltaram

Às vezes o futuro

A beleza das pedras da calçada: continuação e provas

Famílias de pirilampos azuis que à noite dançam nos jardins, aninham-se, minúsculos, no coração das primeiras flores da primavera.
E, vogando e tremendo numa nova brisa que balouça os caules, cantam baixinho as palavras belas das cantigas que inventaram.

sábado, 4 de Abril de 2009

A família

o meu avô sentava-me nos joelhos e contava-me histórias sobre as aventuras da menina mais pequena do mundo, que tinha o tamanho da cabeça de um dedo. Aventuras com a adrenalina e as escalas das rodas de carros, das cidades e dos cães das cidades. Histórias sobre a coragem, o medo e a bondade. O meu avô era um homem bom que coleccionava canetas e generosidade. E vendia fiado a homens que se alimentavam de vinho e sentimentos sem pão.
Chamava-se José.
A minha avó sempre foi uma mulher livre e teimosa que gostava de ir experimentar peixe fresco junto ao mar. E ia sozinha, como as mulheres do seu tempo não faziam.
Chama-se Daniela.
O meu pai contou-me sobre os pássaros e sobre os ninhos e sobre as pessoas, sobre a guerra que pode ser uma radiografia do valor e da alma das pessoas, sobre o que o poder da vontade pode fazer quando se deita dentro das pessoas e as possui. Foi o homem vivo que me ensinou com poesia que os sonhos se concretizam. Escolheu ser um daqueles homens que testemunha diariamente o que é nascer e morrer. E às vezes os olhos dele espelham isso em verde, outras vezes em castanho. Algumas vezes os gestos de quem vive tudo o que ele vive falam disso e têm poemas.
Chama-se José.
A minha mãe, quando eu nasci, vestiu o seu vestido mais bonito e preparou-se para o dia mais bonito da sua vida. Pintou as pálpebras com um azul que só se vê nas fotografias onde a minha mãe aparece, tão bonita, de chapéu de palha e pálpebras pintadas de um azul-folia. Era uma festa. No dia 11 de Julho a minha mãe ia para uma festa. Mesmo.
Mas antes tinha coleccionado uma família de livros com ilustrações belíssimas sobre o Aladino e a Rapunzel. Tinham dedicatórias para quem teve de sair de dentro dela a ferros.
Contou-me depois histórias completas e era dos braços dela que saíam os livros onde estava o mundo. Organizou com ternura e lucidez um espaço mágico onde cresci. Que tinha as horas como aguarelas, que tinha rituais com temperaturas e cheiros, como o Natal e a Páscoa, os fins-de-tarde verdes com musgo e as férias junto ao mar com cores e fotografias.
Chama-se Isabel.
Faz hoje anos.
Dedico-lhe estas linhas e o que sinto quando me sinto
Abençoada.

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

A coragem da memória

Pegou na caixa e abriu-a com dor. Tinha lá o passado e os sonhos. Tinha lá uma força desmedida que se cansara, que envelhecera, que se gastara. Tinha lá guardado o seu brilho nos olhos que era antigo. Existia ainda, mas tão direccionado, tão arrumado nas direcções escolhidas, nos espaços que a vida ganhara. Pegou na caixa e teve medo de se ver bonita e morta lá dentro. Teve medo de saber a verdade e perceber que já era outra. Esperava ver as suas asas ali encolhidas, sentidas com saudades do céu e das possibilidades. Fechou a caixa. Pensou nas coisas importantes que tinha para fazer. Muito mais importantes. Coisas práticas. Compras. Listas de afazeres. Telefonemas, reservas, marcações. Depois olhou a cadeira que era do avô. Em cima dela pilhas de livros empoeirados. Leu os títulos e foi um bocadinho feliz. Tirou os livros, sujou as mãos de pó. Pensou em fazer uma limpeza geral. Pôs os livros no chão e sentou-se nas marcas onde eles estavam. Abriu a caixa. Olhou em frente e viu uma secretária que não era sua, fotografias de família. Medalhas do marido, documentos do marido, o sucesso do marido imponente na secretária no centro do escritório. Tinha de seu aquele cadeirão a um canto, pilhas de livros com pó e uma caixa antiga que nunca mais abrira. Teve frio. Tocou em papéis recortados. Leu coisas com força, leu poemas que tinham sangue e turbilhões. Que tinham gritos verdadeiros, que eram quedas e evaporações. Ia ficando triste. Levantou-se sem a caixa. Tinha tonturas. Foi ver-se ao espelho e tinha na garganta uma luz quente de mãos e de terra. Foi ver-se ao espelho mas foi devagar. Ia dando passos como tragos de coragem. Não fosse a vida, não fosse a vida ainda, ensurdecedora de repente como nunca mais a ouvira… Foi devagar. E quando se olhou teve medo, tanto medo de ver as rugas como rastos da aventura que deixara morrer…

domingo, 29 de Março de 2009

O rosto cheio da morte

Os Guerreiros de Darwin

Fascinam-me as ciências, embora tema o seu lado ganancioso, que nos pode lançar em perigo em nome da enorme vertigem do que é considerado ir mais além. A ciência às vezes fica alucinada e não consegue ver os abismos. Essa viagem fez a humanidade tropeçar em pequenos monstros que não sabemos hoje como tratar nem como alimentar, bichos feios, filhos do que conseguimos ser. Trouxe também caminhos novos, boas possibilidades que parecem acabar apenas no infinito que ninguém sabe onde é. Há tempos inaugurámos por cá o que se considerou a maior exposição mundial sobre Darwin. Logo me chegou uma metáfora sobre os “herdeiros” de Darwin, sobre a sua teoria a desaguar em nós hoje. Sobrevivem os mais fortes, digo eu, humildemente simplificando os estudos do sábio. Os que melhor se adaptam, nas várias selvas temporais. Os que se transformam devido ao que se dinamiza à sua volta. Olhando o mundo tenho dúvidas sobre quem serão os mais fortes. Já tenho menos dúvidas sobre quais serão os mais fracos e as questões voltam a agigantar-se quando penso se isso terá alguma justiça. Quando os animais se matam ou se deixam morrer de forma a ficarem os mais fortes nunca a justiça aqui se pôs. As sociedades, a deixarem-se iluminar por esta verdade e a tentarem combater isto criaram leis que aspiravam a esse sonho de humanidade. A tentarem abandonar assim o caos em que quem é maior ou tem mais dentes acaba com o resto. Claro que não conseguiram porque as leis são uma teoria que nunca fez com que a intenção passasse disso. Mesmo no tempo da extinção de alguns animais como o belo urso polar, a selva continua. Quando se assiste ao alargar das manifestações anti ou alter-globalização, a uma nova e enorme massa que concluiu por fim que tinha esquecido que era algo mais para além da carne, em que se multiplicam os centros de Yoga, de Reiki, de Meditação, em que começam a agitar-se bandeiras sobre os alimentos mais puros, em que tanta, tanta gente pensa em ser vegetariana, em que a cultura passa a estar, calma e discretamente na moda, sentimos que algo está a mudar. Depois o outro lado, o futebol e a as novelas, as beatas de cigarro e as cuspidelas no chão, a água desperdiçada com um sorriso nos lábios, a reciclagem não que dá muito trabalho, as plásticas e as transfusões de sangue em vez dos alimentos frescos, todo o lixo televisivo que se engole como se o mundo fosse acabar, como se a televisão fosse um íman e o corpo e o cérebro só a ela respondessem. Os soldados nas guerras a matarem crianças que não sofrem como as que deixaram em casa porque são de outra cor, o sangue e a dor, ensurdecedores, e as pessoas a jantar e depois a sobremesa. Os soldados a orgulharem-se de como mataram bem em nome de qualquer coisa que nunca aprenderam o que é. As crianças a trabalharem e a morrerem nas lixeiras, a sonharem nas lixeiras, doentes a sonharem sobre o lixo.
Depois os números dos esgotamentos, as depressões, os suicídios, os que morrem de fome ou de tristeza, os que não se adaptam. Ainda os incrédulos com tudo isto, a abrirem e a fecharem a boca como peixes a pensar e a dizer: digam-me que isto não é verdade, que não pode ser.
E ninguém lhes diz. Já vi nesta selva descolorida cheia de progresso quais são os inadaptados. Tenho dúvidas ainda sobre qual vai ser a espécie do futuro, a que será a mais forte, a que, nessa altura, melhor se adaptou. Se aquela que vê a felicidade e a dignidade do homem junto às árvores e aos rios ou se outra, que sem saber muito bem a matéria de que é feita, sabe o que quer ter, e defende que alguns sofrimentos são inevitáveis, que é inevitável que morram inocentes, desde que não sejam os inocentes que moram em sua casa. Se forem eles os herdeiros de Darwin, sem ódio e sem nada lhes digo que se preparem. Porque dos quintais e das varandas a vista vai ser cinza. Eu estou pelos guerreiros de Darwin que se vestem de verde. Tento honrar a minha espécie e acendo velas pela paz.
Aposto na inteligência e no progresso.
Não percebo porque temos de lhes arrancar o coração.